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À conversa com… Henrique Portovedo


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Muitas pessoas acham que ser artista é uma coisa de animo leve e não é, a partir de determinado campeonato. (…) dá tanto ou mais trabalho do que ser atleta de alta competição.

Henrique Portovedo, Aveiro, 2016

 

Henrique Portovedo

É um dos solistas de saxofone mais requisitados da atualidade.

Tem na música contemporânea a razão da sua arte.

É um artista português sem fronteiras, tão completo quanto a sua paixão pela música. Vive intensamente aquilo que faz, mas não gosta de fazer a mesma coisa durante muito tempo.  Também por isso, divide-se entre o instrumento e o sound design.

Sentamo-nos à conversa com Henrique Portovedo.

 

Ubber White (UW): Porquê a música e porquê o saxofone?

Henrique Portovedo (HP): Por razões familiares. O meu avô que gostava muito de música e particularmente do instrumento, encaminhou-me para esse tipo de aprendizagem. Tinha eu uns 11 ou 12 anos. Apaixonei-me, até hoje.

 

UW: Como é que encontras o teu lugar na música contemporânea?

Henrique Portovedo: A música contemporânea é apenas uma localização do contexto onde eu me movo. Não quer dizer que não trabalhe fora da música contemporânea.

O meu trabalho é, maioritariamente, ligado à música contemporânea porque é produção de conteúdos musicais hoje.

 

UW: O que te inspira?

HP: Todas as pessoas me inspiram. Muitas vezes, a inspiração para um determinado trabalho vem da pessoa que não é um outro artista envolvido na produção. Uma grande vantagem de nos situarmos neste meio é a proliferação de contactos e a quantidade de pessoas com que nos relacionamos. Portanto, não me refiro a nenhum nome em especial, por pena de ser injusto. Mas, há uma série de nomes que eu, de uma forma sortuda e também fortuita, tive o prazer de conhecer. E há artistas que me inspiram bastante. Por exemplo, um deles é o Rui Costa que é fotógrafo.

Como essas são pessoas com quem eu mais contacto no dia a dia, são aquelas que normalmente me inspiram mais. Uma conversa de café ou atirar uma frase ou outra levam-me a pensar que, se calhar, aquilo até é material para fazer qualquer coisa.

De uma forma geral, a inspiração é viver. Viver com disponibilidade para viver. Isso é a maior fonte de inspiração que alguém pode ter.

Eu acho que viver com disponibilidade, poder dar de nós, sem receio do que vamos receber, é a maior fonte de inspiração.

UW: O teu repertório conta com a estreia de mais de 30 obras. É obra.

HP: Na verdade, são mais. Essas 30 obras foram especificamente escritas para eu realizar a performance ou a sua estreia, enquanto interprete. Em grupos, ensembles, agrupamentos com mais pessoas, de certeza que fiz muito mais do que 30 estreias. Mas isso não é assim tão importante.

O mais importante nisso é o facto de ser alguém que mereça confiança dos compositores quando eles escrevem qualquer coisa. Ver a obra nascer, ao vivo, é um momento muito angustiante para o compositor, porque ele está a entregar a sua obra a uma pessoa em quem vai confiar e o público vai acreditar que o que o músico fez foi a obra que o compositor escreveu, criou.

Portanto, esse número (30) é, essencialmente, uma validação de confiança dos compositores.

 

UW: És também artista sonoro e sound designer, o que te permite trabalhar regularmente em televisão e teatro. Em que consiste esta vertente do teu trabalho?

HP: Um sound designer, basicamente, é uma pessoa que faz programação de síntese sonora. Ou seja, é a criação de sons, é a manipulação de matéria sonora que é remoldada. Muitas vezes, é pegar numa simples frequência e dar-lhe outras características para que aquela frequência sonora passe a ser mais rica.

A arte sonora pode consistir em musicar um anúncio publicitário, fazer música para cinema ou para uma peça de teatro. A arte sonora tem que ver com a manipulação de sons.

É algo que também gosto muito de fazer.

Henrique Portovedo

 

UW: Que peso têm os prémios que já recebeste?

HP: Absolutamente nenhum. E quando digo absolutamente nenhum, não quer dizer que eu não goste de receber o prémio mas, o prémio em si não muda absolutamente nada o caminho estético que eu decido tomar em determinada altura. Ou seja, não é por receber um prémio que vou, eventualmente, canalizar um próximo projeto para aquela área ou achar que se recebi um prémio nesta área devo mudar radicalmente para outra.

A importância dos prémios é, realmente, o peso que acabam por ter na biografia. Por causa do prémio, há mais gente que presta atenção ao nosso trabalho.  Agora, no nosso meio, no meio da música, não tem importância absolutamente nenhuma. É algo de tão subjetivo como a própria arte. Portanto, não é algo que seja fraturante na carreira de um artista.

 

UW: Até agora qual foi o teu maior desafio?

HP: Houve um desafio o ano passado que foi estrear uma obra de um compositor português, o Hugo Correia, no Congresso Mundial de Saxofone, onde tinha a acompanhar uma orquestra francesa. O Congresso foi em Estrasburgo, a sala era enorme, com cerca de 2000 pessoas, com a particularidade de estar cheia de saxofonistas. Confesso que me baralhou um pouco. Senti um peso bastante grande. Não é que isso me tenha influenciado a performance. Nos momentos em que entramos para o palco, com a experiência e com a prática, já é igual tocar para três pessoas ou para uma multidão. Mas, estavam pessoas criticas, especificamente desta área de ação, pessoas que fazem isto profissionalmente. Para além disso, o Hugo tinha estudado em França e nunca um músico português tinha tocado a solo com aquela orquestra. E se os portugueses são extremamente criteriosos, os franceses são para além de muitíssimo criteriosos e muito críticos relativamente a quem não é francês. Portanto, estar a fazer uma música que não tem nada que ver com a linguagem estética francesa atual, nem do jazz mais experimental nem do eletrónico… Eu sabia que, esteticamente, era algo muitíssimo próprio, algo que eu não posso dizer que é europeu ou americano, é Hugo Correia. Estar a fazer aquilo ali para os franceses intimidou-me um pouco.
Mas o real grande desafio mesmo é o trabalhar todos os dias.

 

UW: Como assim?

HP: Muitas pessoas acham que ser artista é uma coisa de animo leve e não é, a partir de determinado campeonato. Eu só consigo tocar ao vivo, fazer este tipo de trabalho se estiver uma média de 5, 6, 7 horas de estudo só com instrumento, para além de todo o trabalho que depois tem de ser feito de análise, de contactos, etc. Estamos a falar de pessoas que têm um horário de trabalho normal de 8, 9, muitas vezes 10 horas por dia. Esse é o grande desafio.

Todos gostamos de ter domingos e sábados, mas isso não é de todo possível a maior parte do ano, só mesmo em férias.

Não se fala muito disso, acho eu.

Por mais que gostemos do que fazemos é difícil manter uma disciplina durante tanto tempo e o facto de relaxar traz-nos mesmo desvantagens.

Tocar um instrumento é algo extremamente físico. Portanto, dá tanto ou mais trabalho do que ser atleta de alta competição. Há dedos para estar a funcionar, no meu caso há lábios para estarem a funcionar. Acho que é mais complicado do que praticar alguns desportos, em que trabalhamos grandes grupos musculares. Neste caso, estamos a trabalhar com motricidade muitíssimo fina.

Henrique Portovedo

 

UW: És fundador e diretor artístico do Aveiro SaxFest. Como surge este festival?

HP: Sim, juntamente com o João Figueiredo. É um festival que existe desde 2008, ligado à especialidade.

Houve razões históricas para a sua criação. O conservatório de música de Aveiro sempre teve a particularidade de ter muitos saxofonistas. Havia um professor que era o Fernando Valente que era uma pessoa muito sui generis e que estimulou muita gente a seguir música e eu ainda fui aluno dele.

Havia um festival em Aveiro que julgo que era o Transmusicas, o antecessor do Outras Músicas, e que foi o primeiro festival em Aveiro de sons do mundo. O Fernando criou uma dinâmica muito interessante na cidade. Depois da sua morte, não houve ninguém que tivesse dado continuidade a esse trabalho. Então, eu lembrei-me que uma das coisas que podíamos fazer, até por homenagem, seria fazer um festival de saxofone que pudesse continuar a potenciar uma grande quantidade de alunos em torno do instrumento.

Depois, a cidade é espetacular. Tem o tamanho suficiente para parecer extremamente urbana, sem as complicações de uma cidade extremamente urbana. É muito fácil programar o festival com grandes nomes, porque as pessoas querem e gostam de vir a Aveiro.

Henrique Portovedo

 

UW: Fazes alguma preparação específica antes de cada atuação?

HP: Cada  vez mais faço treino físico, como se fosse desportista, em especial em fases em que tenho concertos com alguma responsabilidade e que sei que vão exigir mais de mim, quer psicológica, quer fisicamente. Ou seja, a forma de eu me sustentar psicologicamente é, cada vez mais, física, com o treino fisico. Então, quando tenho, por exemplo, congressos ou concertos a solo, em que estou sozinho em palco, aí faço uma preparação física muito rigorosa.

 

UW: Como vês a Ubber White?

HP: A Ubber White achou uma forma muito engraçada de utilizar como suporte artístico as sapatilhas, o objeto que dá suporte à arte é a sapatilha. Quando me explicaram o conceito da marca, senti que havia algo mais que o mero aspeto comercial e que tem que ver com o objeto que permite que a arte seja fruída.

A arte pode existir sem suporte, mas jamais será fruída se não tiver uma plataforma que faça com que haja um objeto artístico. Neste caso, o objeto artístico está nos pés e vai para todo o lado. É muito interessante.

 

Entre notas de simpatia e partituras de histórias e projetos, ainda muito mais poderia ser dito sobre Henrique Portovedo.

Nada como descobrir.

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